Então, ele colocou no antigo toca-discos um LP que há tempos estava guardado para uma ocasião muito muito especial.
Ele preparou todo o quarto, posicionando todos os móveis de modo que houvesse um considerável espaço no centro do recinto. Na verdade, ele queria facilmente deitar-se no chão quando necessário. Um grande tapete redondo de retalhos coloridos cobria boa parte do espaço. Não havia cama.
O rapaz aguardava uma visita muito especial. Preparou o cenário dos seus mais íntimos desejos com toda a sua volúpia, com toda a sua tara, sentindo uma vontade incontrolável de gritar, de externar a dor mais íntima e mais discreta que já sentiu em toda a sua vida de dezoito primaveras.
Lá estava ele agora deitado, com a face voltada pro chão, aguardando a chegada da mulher mais sedutora e poderosa que ele já havia conhecido. Ele não sabia o quanto já havia esperado; estava naquela posição fazia horas.
Toca Venus in furs na vitrola de seu sempre tão ocupado pai. O som inebriante toma conta do sombrio recinto. Que mistério havia ali?
Mas ela surge! Finalmente entra no quarto. E enquanto se aproxima, o coração dele dispara. Todo o seu metabolismo parece fora de ordem. Sintomas da carne enlouquecendo, cheia de fúria e sede e prazer e medo. Ele nunca havia tido um encontro daqueles. Valeu a pena esperar? Valeu a pena esperar.
A gótica figura se aproximou lentamente e logo o olhava por cima, via-o olhando para o chão em posição de submissão, de entrega total. Ela bateu o salto da bota no chão sinalizando que ele deveria beijar aquele delicioso calçado de couro preto e brilhante.
Ele obedeceu prontamente. Como não poderia? As horas passavam deliciosamente.
- Já chega! – disse ela. – Não quero te dar tanto prazer assim. Ter você aqui aos meus pés, beijando minhas botas não me satisfaz em nada!
- Por favor, Liza. Eu só...
- Calado! Cala a boca, seu lixo! Vou te mostrar o que eu quero com o seu corpinho magro. Ela trazia uma necessaire preta com alguns detalhes prateados e uma pequena inscrição dourada: sub.
Aquela sedutora mulher vestida de preto, que usava largas correntes provocantes no pescoço, foi até o canto do quarto lentamente. Colocou sua necessaire sobre a mesa, abriu-a e tirou de lá um chicote de cinco pontas. O curioso é que aquele chicote havia sido mergulhado numa mistura de vidro triturado e cola.
- Ajoelha! – ordena ela, ao mesmo em tempo que levanta o queixo do rapaz com a ponta da bota.
Ele obedecia e olhava-a com admiração plena. Apenas diz:
- Agora mesmo!
- Tá vendo isso? Tá vendo o brinquedo que vou usar na sua carne? Olha a textura. Sente. Sabe o que te espera?
- Liza, por favor, eu não vou aguentar. Por favor! Eu não tô pronto.
A gótica senhora, cheia de satisfação, ri do sofrimento do pobre rapaz. Ela gargalhava enquanto acariciava o rosto do rapaz com aquele chicote.
- Você é tão fraco, inseto! Tão ridículo. Eu quero que você implore pra ser açoitado. Pede pra levar uma surra agora!
O rapaz sentia-se acuado e, ao mesmo tempo, cheio de desejo, cheio de vontade de ser um objeto abjeto do prazer de sua senhora. Ele tentava disfarçar seu descontrole, tentando impedir o ranger de seus dentes, limpando as gotas de suor que pingavam no chão. Sua testa suava; suas mãos também. Inutilmente ele tentava limpar o suor no chão com as mãos. Suas mãos também estavam molhadas; sua boca estava seca. Ele sabia muito bem que não aguentaria o castigo que lhe seria imposto, mas não poderia se opor. Jamais poderia contestar as vontades dela. Havia feito voto de obediência.
O celular dela toca. Antes de atender a chamada, ela ordena a ele que segure o chicote com a boca. Impressionante observar que ela ordena sem dizer uma palavra sequer.
- Alô! Sim, ela mesma, a Liza.
A conversa foi se estendendo e se estendendo cada vez mais. A dominadora gótica sentou-se em uma poltrona vermelha, colocando seus pés no ombro esquerdo de seu submisso admirador.
Por fim, após vários minutos, a ligação vai terminando.
- Ele tá bem aqui na minha frente. Tá morrendo de medo de mim. Ele sabe que hoje é o dia do castigo dele. Mas vai gostar, eu garanto. Vai aprender que eu mando nele, na pele dele, na alma dele, na vida dele. Depois ele vai acabar escrevendo o que aprendeu naquele caderninho dele. Então, vou ensinar um pouco pra ele o que são sombras e desejos. Mais tarde eu te ligo, amiga. Beijos!
Voltando-se para ele, a estranha mulher faz uma pergunta retórica:
- Onde nós paramos, meu baunilha inútil?
Mas ela não deixou o assustado rapaz responder, dando-lhe um tapa no rosto. Ela ria muito e se divertia com o que acontecia. Foram três, sete, doze, quinze, mais de vinte tapas. O rosto vermelho dele não escondia o poder das mãos dela, adornadas com pesados anéis de metal.
Aquela cena impressionava realmente. Ela, tão poderosa, calçava botas pretas de couro com a ponta finíssima e o salto também. As botas brilhavam muito. Aquele era um brilho sedutor, entorpecente para os olhos e sentidos daquele jovem.
Realmente o sangue do sonhador e delirante rapaz estava borbulhando. Naqueles instantes já havia perdido o controle do seu corpo, suas mãos suavam cada vez mais, sua tez molhada revelava que seu metabolismo estava acelerado, desordenado. Seria loucura? O coração dele não cabia mais no seu tórax todo coberto de velas derretidas de cores diferentes. Ele respirava cada vez mais ofegante. Pela primeira vez percebera o sentido da expressão “coração saindo pela boca”. Aquela sensação lhe era muito prazerosa, pois esperava por aquele momento por muito tempo. A cada segundo, ele se diminuía e deixava de ser “alguém” para se tornar “algo”. Tornara-se, prazerosamente, algo dentro daquele recinto enquanto o dia lentamente passava. Por horas, foi feito de tapete, ouvindo inúmeras vezes sua senhora chamando-o, com aparente desprezo, de “meu capacho nojento”. E assim, ele foi sendo adestrado, tornando-se objeto do sadismo daquela gótica, vampiresca e bizarra figura. Havia algum mistério nisso? Por que ele se entregava assim?
Lá estava aquele pobre rapaz quase desfalecido no chão... Seu rosto, todo marcado pelo salto pontiagudo daquelas deliciosas botas pretas, ainda demonstrava um sorriso de plena satisfação pelo suplício sofrido. E atendendo a mais uma ordem, ele beija as botas de sua carrasca, incessantemente, obedientemente, afetuosamente, calorosamente. Queria que o mundo acabasse naquele momento. Como queria! Quanta alegria!
Ela gostava de vê-lo no chão. Ela ria, cuspia, pisava, trotava, batia, chicoteava, delirava... Ele beijava os pés dela, agradecendo a oportunidade de estar ali idolatrando aquelas botas brilhantes.
- Chega, Rick! Já tá bom! Já vi que você me ama. – disse ela enquanto tentava salvar suas mãos dos enlouquecidos beijos repetitivos dele.
- O quê? Nossa! Me desculpa, amiga. – assustou-se ao perceber que eles estavam no colégio. O rapaz olha ao redor e percebe que havia sonhado acordado. Logo ao abrir os olhos, lê, bordado na mochila da moça, o nome de uma banda de rock pesado: sub-MISTRESS.
Ambos começam a rir. Ele, meio sem graça.
- Você tava viajando, Rick?
- Muito, Liza, muito! Eu sempre fui seu fã. Sempre! Você é tão perfeita, tão demais. Esse batom preto, essa roupa com tachas, essas botas...
- Você gosta das minhas botas?
- Num faz isso, amiga, por favor. Eu queria...
- Você quer o quê? – indaga ela sorrindo maliciosamente.
- Às vezes, eu tenho umas ideias malucas. Você vai me achar um idiota.
- Eu acho o que eu quiser, meu amigo. E acho que já sei o que você quer. Já percebi faz tempo. Já peguei você olhando pro meu pé. Achei legal, acredite. Hoje à tarde vou pra sua casa. Seu pai tá viajando, né?
- Sim, Senhora. – respondeu o rapaz enquanto tentava disfarçar seu ardente desejo por ela.
- Me diz de uma vez. Responde sem medo, Rick, meu brinquedinho, só uma pergunta minha?
- Sim, Senhora.
- Você quer ser meu escravo hoje, amanhã e sempre?
- Sim, Senhora!
Conto publicado na Antologia Sombras e Desejos, São Paulo, Editora Ixtlan, 2014.
Fã da Deusa

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